domingo, 12 de abril de 2020

GRATIDÃO DAS PERDIDAS

Imagem ilustrativa

A poetiza, Anna Lins dos Guimarães Peixoto BretasCORA CORALINA, (1889 - 1985) Conservava um carinho e respeito especial pelas meretrizes. Ela na sua meiga simplicidade compreendia que as prostitutas viviam num mundo artificializado e carregavam silenciosas tristezas em suas almas. Tanto que compôs dois notáveis poemas:Todas as vidas e Mulher da Vida.
Gratidão das perdidas (Maurício Matos Cunha) é a "voz" de agradecimento de uma prostituta, que representa essas mulheres a margem, os quais vendem seus corpos para dar prazeres alheios, no entanto, na maioria desses casos são meios de sobrevivência.




Gratidão das perdidas


Nossa "irmãzinha" era verdadeira:
Nunca residimos na mesma casa.
Jamais conversamos frente a frente.
Sua senda não foi o viés da prostituição,
ainda assim, demostrava-nos respeito.
Sabia o quanto éramos bem carente.
Seus pensamentos solidificados em palavras¹
eram lenitivos que nos confortava,
em nossas tristes incertezas no meretrício,
com tipos de homens desconhecidos.
Entendia que temos destinos de Lucíola²,
carentes de amor inteiro e verdadeiro.
Tratadas como objeto do agrado alheio.
Vivia na mais completa simplicidade,
no seu lar, querida cidade de Goiás.
Enquanto, estamos perdidas nas cidades,
vivendo carregadas de vãs festividades.
Possuía uma exclusiva alcunha,
diferentes dos nossos postiços nomes:
Natasha’s, Michele’s, Rebeca’s, Kelly’s,….
Jamais foi dama vadia da rua,
todavia, entendia nossas árduas vidas.
Em suma, os seus preciosos versos
eram alentos que cobrem nossas feridas
e estarão sempre dentro de muitos corações.
Obrigado (minha irmã)³ Cora Carolina.

Maurício Matos Cunha



¹ – (7º verso) - referência, poema: Todas as VidasCora Coralina – “[…] Vive dentro de mim/a mulher da vida/[…]”
² – (11º verso) - referência, romance: Lucíola – José de Alencar – Prostituta e protagonista: “Lucíola”.
³ – (Último verso) - referência, poema: Mulher da vidaCora Coralina – “Mulher da vida/Minha irmã/[…]”


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